• Veronica Machado

Casarão Cultural de Arrozal

Neste belo prédio foi filmada a novela "O Casarão" pela Rede Globo, desde então, nome passou a ser "oficial" entre os moradores de Arrozal.

Fotografia da Fachada do Casarão Cultural de Arrozal em 2014, ano em que iniciamos a pesquisa Histórica para o escritório BOA Arquitetura.


O Casarão, ao longo de seus 178 anos de história, foi um espaço onde aconteceram diferentes atividades, sendo a princípio moradia da família Souza Breves, ao longo do século XIX, depois o espaço foi vendido à Irmandade do Santíssimo Sacramento que permaneceu no local até 1980. Após essa data, o casarão foi doado à Mitra Diocesana de Barra de Piraí e Volta Redonda, instituição que promoveu algumas reformas no prédio para abrigar, a princípio, atividades da igreja.


Na década de 1990, a irmã Elizabeth Alves assume a direção do Casarão e promove diversas atividades socioculturais para os moradores da região. Duas décadas depois, no ano de 2011, o sobrado recebe o nome Casarão Cultural, tornando-se oficialmente um ponto de cultura para a comunidade de Arrozal.


Como espaço cultural, o casarão oferece oficinas de artesanato, a Pastoral da Criança, Cozinha Escola, Farmácia Caseira, Rádio Comunitária e o Museu do Negro, com um acervo constituído basicamente de informações históricas sobre a região, o período da escravidão, as fazendas de café e arroz no período imperial e sobre a Irmandade do Santíssimo Sacramento de Arrozal.



Segundo as informações publicadas no mural da Igreja de São João Batista do Arrozal, a data de sua construção é de 12/04/1839, conforme a Lei Provincial nº141. Em 1863, a paróquia é elevada a categoria de Paróquia Imperial pelo seu destaque administrativo. Em 1881 é aprovada na Câmara a reforma da igreja na qual foram retirados dois altares laterais. Os livros de registros de batizado e de óbitos dos habitantes de Arrozal encontram-se na Cúria Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro.


A história do casarão de Arrozal está estritamente relacionada com a história da família Souza Breves que teve grande prestígio durante todo século XIX nesta região. Antônio de Souza Breves (1720, Ilha de São Jorge, Açores – Portugal – 31/12/1814, em São João Marcos, Rio de Janeiro) foi casado com Maria de Jesus Fernandes, natural de Santa Luiza da Ilha Terceira, Açores – Portugal. António de Souza Breves chega ao Rio de Janeiro no final do século XVIII. Ao receber do vice-rei Luis de Vasconcelos e Souza a sesmaria de Campo Alegre, localizada em São João Marcos (atual Rio Claro) na data 16/04/1784, ele se estabelece nessa região com sua esposa e seus dois filhos nascidos na Ilha Terceira, Ana Margarida e José de Souza Breves.


Este filho, provavelmente foi o primogênito, pois o seu nome está associado a muitas terras na região de São João Marcos, conforme o fundo “Sesmarias do Estado do Rio de Janeiro” do Arquivo Nacional. Já os seus irmãos Manoel, Domingos Francisco e Thomé de Souza Breves nasceram no Brasil, especificamente em São João Marcos de acordo as informações encontradas em seus respectivos inventários.


Assim, o nosso levantamento de imagens e documentação manuscrita sobre o sobrado de Arrozal teve início por meio da pesquisa nos acervos do Arquivo Municipal de Piraí, no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ) e no Arquivo Nacional. Nestes, consultamos fotografias, cartas de sesmarias, inventários de membros dessa família, escrituras e declarações de terras de Arrozal e Piraí e as Atas da Câmara de Piraí.


Investigamos também os acervos de iconografia e cartografia do século XIX da Biblioteca Nacional, do Arquivo Nacional, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, porém não encontramos nessas instituições algum material referente ao sobrado ou Casarão de Arrozal. A documentação iconográfica levantada está no fundo da família Breves no Arquivo Municipal de Piraí e no acervo da Mitra Diocesana de Barra do Piraí e Volta Redonda.

Acima, na planta do pavimento térreo, anterior às duas reformas que ocorreram, sendo a primeira na década de 1990 e a segunda em 2002. Esta planta não possui informações sobre o seu desenho, não possui data nem um carimbo de registro em algum órgão. Acervo: Mitra Diocesana de Barra do Piraí e Volta Redonda.


Uma das dúvidas que as arquitetas e moradores da região tinham em relação às fachadas do prédio consistia em saber se, na construção original, haviam portas no térreo. Como a planta não fornecia tal informação não era possível afirmar.


Devido à ausência de imagens do sobrado no século XIX (a fotografia mais antiga que encontramos está datada de 1923) e outras plantas de arquitetura que pudessem nos oferecer mais detalhes sobre a construção do Casarão, partimos para o levantamento e análise de outro tipo de documentação: inventários, declarações de terras, registros de imóveis e outros que pudessem nos oferecer mais informações para a restauração do sobrado de Arrozal.

Fotografia de 1923. Nela observamos as portas nas fachadas do pavimento térreo.


Desta forma, analisamos os inventários de Manoel de Souza Breves e do seu sobrinho José Joaquim de Souza Breves levantados no Arquivo Municipal de Piraí e identificamos que o sobrado foi construído por Manoel de Souza Breves por volta do ano de 1836 para servir de moradia na parte superior e comércio no térreo, um tipo de construção bastante comum nesse período. Após a morte de Manoel em 1846, o sobrado é administrado por sua esposa, Possidônia Maria do Rosário até a data de 1856, momento no qual o sobrado é adquirido por José Joaquim de Souza Breves.


No Inventário de bens de Manoel, aberto ano de 1846, o sobrado é avaliado: Bens na Freguesia -“Um dito (lance de casas de sobrado) com escada que serve de entrada no valor de 750$000 (setecentos e cinquenta mil réis)”7 . Apesar desta descrição não oferecer referências consistentes sobre o sobrado, encontramos nos Registros de Terras Paroquiais, uma declaração de terras de Possidônia Maria do Rosário, esposa de Manoel, datada de 1855, na qual ela descreve:


[...] Digo eu Possidônia Maria do Rosário abaixo assinado que sou senhora e possuidora de uma porção de terras, citas na Freguesia de São João batista do Arrozal, existindo na frente deste terreno uma casa de sobrado coberto de telha, caiada de branco e seis janelas e seis portas na frente, duas janelas no oitão da direita, uma janela e uma porta no oitão da esquerda e seis portas e três janelas nos fundos e mais algumas benfeitorias cobertas de palha cujas porções de terras as houve por meação por parte de meu finado marido Manoel de Souza Breves.

Cabe lembrar que Possidônia refere-se a Lei de Terras regulamentada pelo decreto n.1.318 de 30/01/1854. Este regulamento procurou dar conta das inúmeras situações relacionadas à ocupação das terras. Os chamados Registros de Terras Paroquiais tornaram-se obrigatórios para todos os possuidores de terras, a partir desta data, qualquer que seja o título de sua propriedade ou possessão.


Com a descrição do imóvel feita por Possidônia em meados do século XIX, apresentamos uma simulação de como deveria ser o sobrado naquela época:


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